Ainda me lembro do dia que alguém querido me falou de aviões e de suas lições de partir. Estava deitado de bruços sobre aquela velha cama, passando o tempo, folheando, e deixei que o sussurro me levasse ao adormecer, acalentado com um quê de canção de ninar. Sempre tive pra mim que a melhor arte, a palavra justa, a imagem certeira é aquela que permeia a vigília e o sono. Os melhores filmes e livros foram aqueles que me fizeram dormir em algum momento. Óperas, shows, peças de teatro e ballet; enfim, tudo que é ao mesmo tempo real, por ser feito de tal matéria, e irreal, por ser humano, por ser arte.
Dou razão àquele amigo. Há algo de post-mortem após a tremedeira da decolagem e a cidade prostrada sob os olhos, numa distância de anos e décadas que somente a dissolução e a elevação concedem. Cada rosto à janela divide com os demais esta cumplicidade, onde muitas vezes o alívio de uns faz curioso par com a melancolia de outros. Todos os instantes vividos trafegam pelas ruas desta maquete colossal. Elas têm volume, cheiro e tato. Elas beijam o rosto e sofrem com o ralar da barba mal-feita. Elas são a esposa do soldado que vai a mais uma guerra.
Nunca sabemos com certeza qual será o último encontro, a última vez. Só envelhecemos na espera.
A simetria exata destas sensações vem horas depois, com o novo horizonte crescendo, vindo de baixo. As turbinas rangem, o ar corta a superficie de vidro, os ânimos se arrefecem. Um útero se contorcendo de uma dor tão incompreensível quanto o inglês das comissárias de bordo. Em um só segundo, todas as expectativas do recinto parecem se aprochegar, parecem procurar respostas entre si. Cantam em um uníssono gritante, pleno, transbordante, insuportável, mudo. No fim nada mais é que tomar ar antes do mergulho, antes do primeiro desembaçar de nuvens. Novamente das beiradas, pulam à vista ruas virgens e esquivas como uma debutante na velha arte do flerte. Há uma certa timidez, há uma certa resolução, findas somente pelos trajetos de ônibus ou táxi, adentrando em mistérios. Cada placa de sinalização é um achado, com suas cores e suas disposições tão diferentes daquelas de nossa terra. Tudo cheira a livro novo; o mundo é uma grande inauguração. Como que por reação natural, a memória teima em querer ver um antigo conhecido nas pessoas que escapam de todos os lados. Uma Mariana ainda mais branquinha, um Jorge de cabeça raspada, uma Taci levemente mais alta. Parece uma maneira de se sentir menos estrangeiro e mais vivo. Até que o tapa do médico traga de uma vez por todas a consciência e o choro berrado à realidade.
Brasil. Recife, Fortaleza e Teresina em agosto, em setembro. Depois a França, depois Claromonte novamente. There and back again. Fui Ulisses descendo, atrás de acertar conta com fantasmas antes de prosseguir a longa jornada de volta pra casa. Um tanto abstrata, talvez em nenhum dos lados do Atlântico, mas ainda assim minha casa.