Outubro 4, 2009

A sombra de Saladino sobre meu berço

Outra imagem que não se desbota é uma que tão mal e pouco vi. Mas era alguém, e seus sinais de vida me vinham naquele ralador de queijo que irritava meu rosto quando ele me beijava. Depois de momentos assim, me virava e voltava a dormir, sem muito pensar quando o sentiria novamente. Talvez à noite, normalmente pela manhã, em horas tão vazias de minha existência pelo mundo. Devo ter sonhado pelo menos a metade destes afagos.

Nos fins de semana, seu vulto tinha tronco, membros e cabeça. Quando eu tentava lhe alcançar as beiras, era um gigante que se confundia com a coroa solar. Distante como uma ideia, onipresente como uma ideologia. E pesado, quão pesado era aquele olhar quando em sua face resplandeciam os mandamentos divinos! Seus dedos rijos, mesmo pétreos, reverberavam em minhas retinas as tábuas de uma lei que ascendentes imemorais lhe repassaram. Se necessário, este atavismo queimava minha pele com a força de um amor incondicional, para depois inundar o rosto deste meu pai com a lástima de uma rígida culpa. Antes que eu pudesse escutar apenas um de seus soluços, ele se afastava para muito além de minha vista recolhida, egoísta e vitimizada.

Esta sombra não foi somente minha maior lição de humildade, como sobretudo de majestade*.

* = Ou, ainda melhor, de הוד (hod), como diriam os cabalistas.

Outubro 4, 2009

Trabalhar num restaurante

Minha maior herença foi o ódio por adular outros como a criancinhas – que fossem clientes ou não.

Fevereiro 25, 2009

Me chamas baixa, calmamente

O horizonte tenso e alaranjado
se estende sobre fontes, janelas,
polímeros de carbono, suspiros,
sobre meus velhos óculos sujos
e toca minha testa reclinada.

Cruzo um teto pálido de certezas
com uma tranquilidade assustadora.
As ruas brilham de um ar turvo
e não levo mais segredos comigo.

Se fosse rascunhar o trajeto
de minha cama até minha cama,
me perderia em tantas linhas,
em tantos dias que não passei
e em outros tantos que reparti,
joguei para cima e esperei quieto.

Cada noite que cai é a existência
de um outro dente-de-leão por aí,
para além de minha curta memória.

Fevereiro 20, 2009

Toda roupa suja cheira a passado

Cada nova contorção, cada ciclo da máquina de lavar – e aquela vontade louca de voltar pra casa – é outro dispositivo de fuga e memória. Eis o que revi na última segunda-feira:

A fila para o detector de metais que dá no salão de embarque. Um passo e outro como uma milha sobre o Atlântico. Eu seguia conferindo pela milésima vez a presença do passaporte, da passagem, do dinheiro, da família no outro lado do vidro. Se chega à ultima curva. Me viro mais uma vez e guardo a última imagem de minha mãe antes de partir. Ela não mais ensaia gestos com a mão, nem tenta me dizer mais alguma coisa. Ela apenas olha, me olha fixa com um ar lívido. Passamos como que dois segundos nisto. Sua vista transpassava meu próprio corpo, como se ela rezasse. Um brilho tão repentino quanto passageiro jorra e seca em um de seus olhos: era minha vez de passar pela revista.

As lágrimas mais pesadas são as engolidas.

Outubro 23, 2008

Política a Mefistófeles

“(…) dada minha experiência na área, garanto que satisfarei suas expectativas. Pois, acredito, o ambiente proporcionado por uma biblioteca é um dos que melhor convêm para a criatividade e a produção científica”.

O que um cara não diz por dinheiro, não é mesmo?

Outubro 15, 2008

Prazeres em desvoltar

Ainda me lembro do dia que alguém querido me falou de aviões e de suas lições de partir. Estava deitado de bruços sobre aquela velha cama, passando o tempo, folheando, e deixei que o sussurro me levasse ao adormecer, acalentado com um quê de canção de ninar. Sempre tive pra mim que a melhor arte, a palavra justa, a imagem certeira é aquela que permeia a vigília e o sono. Os melhores filmes e livros foram aqueles que me fizeram dormir em algum momento. Óperas, shows, peças de teatro e ballet; enfim, tudo que é ao mesmo tempo real, por ser feito de tal matéria, e irreal, por ser humano, por ser arte.

Dou razão àquele amigo. Há algo de post-mortem após a tremedeira da decolagem e a cidade prostrada sob os olhos, numa distância de anos e décadas que somente a dissolução e a elevação concedem. Cada rosto à janela divide com os demais esta cumplicidade, onde muitas vezes o alívio de uns faz curioso par com a melancolia de outros. Todos os instantes vividos trafegam pelas ruas desta maquete colossal. Elas têm volume, cheiro e tato. Elas beijam o rosto e sofrem com o ralar da barba mal-feita. Elas são a esposa do soldado que vai a mais uma guerra.

Nunca sabemos com certeza qual será o último encontro, a última vez. Só envelhecemos na espera.

A simetria exata destas sensações vem horas depois, com o novo horizonte crescendo, vindo de baixo. As turbinas rangem, o ar corta a superficie de vidro, os ânimos se arrefecem. Um útero se contorcendo de uma dor tão incompreensível quanto o inglês das comissárias de bordo. Em um só segundo, todas as expectativas do recinto parecem se aprochegar, parecem procurar respostas entre si. Cantam em um uníssono gritante, pleno, transbordante, insuportável, mudo. No fim nada mais é que tomar ar antes do mergulho, antes do primeiro desembaçar de nuvens. Novamente das beiradas, pulam à vista ruas virgens e esquivas como uma debutante na velha arte do flerte. Há uma certa timidez, há uma certa resolução, findas somente pelos trajetos de ônibus ou táxi, adentrando em mistérios. Cada placa de sinalização é um achado, com suas cores e suas disposições tão diferentes daquelas de nossa terra. Tudo cheira a livro novo; o mundo é uma grande inauguração. Como que por reação natural, a memória teima em querer ver um antigo conhecido nas pessoas que escapam de todos os lados. Uma Mariana ainda mais branquinha, um Jorge de cabeça raspada, uma Taci levemente mais alta. Parece uma maneira de se sentir menos estrangeiro e mais vivo. Até que o tapa do médico traga de uma vez por todas a consciência e o choro berrado à realidade.

Brasil. Recife, Fortaleza e Teresina em agosto, em setembro. Depois a França, depois Claromonte novamente. There and back again. Fui Ulisses descendo, atrás de acertar conta com fantasmas antes de prosseguir a longa jornada de volta pra casa. Um tanto abstrata, talvez em nenhum dos lados do Atlântico, mas ainda assim minha casa.